O espírito da América

Sunday, May19th from Giseli Vasconcelos on Vimeo.

Não faz muito tempo que cheguei aqui para me acomodar numa terra gelada de New England, o pontão nordeste onde a história branca americana se inicia. A região é formada por seis estados – Massachusetts, Maine, Connecticut, New Hampshire, Vermont, Rhode Island. A região, vizinha do estado de Nova Iorque, é considerada o principal centro de educação, tecnologia de informação e biotecnologia do país, além de turisticamente ser conhecida pela precisão e exuberância das quatro estações do ano.

 Moro numa cidade que fica no coração de Massachusetts. O coração da res publica (Heart of the Commonwealth). Worcester tem um fluxo diário de gente indo e voltando todos os dias de Boston, que é a principal capital cultural e financeira da região. Nesse vai e vêm entre highways hipnóticas, enxergo gigantescos aglomerados da indústria farmacêutica e internética. Parece progresso, insistem em dizer que é desenvolvimento – mas o que sinto é letargia. As placas dos carros anunciam o que é Massachusetts – The Spirit of America. Carro e frio e gente com mais cérebro pensante do que corpo sentido.

A Worcester de Massachusetts é uma cidade pequena, charmosa, acessível e gelada que nos últimos quinze anos vem compondo uma nova paisagem humana carregada por imigrantes de todas as partes do mundo. São famílias expatriadas, refugiados, muitas crianças e idosos e estudantes asiáticos. Uma profusão de outras línguas e linguagens corporais de todos os lugares do mundo em qualquer espaço público da cidade, num mesmo playground multilíngue. São 800 mil habitantes compartilhando o mesmo espaço também com migrantes das cidades grandes, provenientes de Nova Iorque ou Boston, e que vieram depois da crise econômica em busca de boas escolas públicas, vida menos dispendiosa, não violenta, e principalmente com assistência médica subsidiada pelo Estado. Esses, em sua maioria são os pobres, negros e latinos oriundos da América Central e Caribe, de uma safra migratória da década de 90.

Eu saí do trópico úmido do extremo norte do Brasil, dum pedaço da Amazônia. O calor e o sol que costumeiramente alimentavam minha pele, de fato aqui, só aparecem quatro meses ao ano. Foi difícil entender as mudanças de estações que antes não faziam sentido: a primavera, o verão, o outono e o inverno, nunca se mostraram tão bem definidos. Qualquer vida ao redor muda, as plantas, a paisagem, as pessoas e suas rotinas mudam sistematicamente. Tive que desmantelar meu comportamento tropical quando encontrei New England pela primeira vez, coberta de neve no meio de uma invernada rigorosa de janeiro. Tive que entender-me como uma espécie, que transferida para um novo habitat, padece e progride a cada temporada por adaptação. O que vestir, o que comer, ou mesmo como dispor a rotina seguem de acordo com a temporada, e isso parece condicionar a mudança de espírito junto com a natureza, o que requer muito tempo para o entendimento do lugar.

Na primavera, quando cores e cheiros dominam os sentidos, os corpos florescem, todos querem flertar e namorar e ver a rua de novo. No verão, as pessoas se entregam para o ócio, tudo mais verde e é tempo de muita colheita até o outono aparecer. É no outono, quando tudo vai morrendo ao redor – as folhas mudam a coloração do verde para o vermelho até amarelar e secar – numa atmosfera que segue com celebrações pagãs até o Natal. Quando inverno, tudo se recolhe, as árvores secam, o sol vai desaparecendo, as noites são longas e as pessoas vão murchando também, isoladas e mais envolvidas em se concentrar ao trabalho e planejar a vida. Alguns escritores e pensadores intrigantes viveram nessa região e tiveram obras relacionada à atmosfera e paisagem desse lugar: HP Lovecraft, Stephen King, Herman Melville, Edgar Allan Poe, Henry David Thoureau entre tantos outros. Emma Goldman viveu uma temporada em Worcester tentando um estúdio fotográfico, que não deu certo, para em seguida abrir uma sorveteria.

Volto sempre ao lugar em que estive pela primeira vez quando o sol abre caminho. Elm Park, onde as árvore de Elm já se extinguiram – dizem que foi o primeira praça planejada da região. Vejo as folhas já amareladas flutuando ao vento, quase morrendo para inverno. O frio me deixou doente por longos períodos quando descobri que desenvolvi uma espécie de tristeza provocadas pela falta de sol – SAD (Seasonal affective disorder) ou depressão de inverno. Parece que parte de mim foi morrendo, adormeceu ou transmutou durante a temporada tentando sobrevida, mantendo o básico de minha intimidade, e nada mais foi tão além quanto. Descobri também que durante a invernada, o corpo só tentava me advertir que era época de tempo livre, mais lento (relacionado às férias escolares no Brasil) seguindo com malemolência até o fim do carnaval. Vitaminas e luz sintética me mantiveram de pé. E fui aprendendo de mim o quanto a minha pele, o meu corpo e o meu calor estão carregados de um conhecimento sensível, um conhecimento tropical.

Percebi as magnólias, uma das flores mais antigas da humanidade, no fim do inverno anunciando a primavera. A espécie híbrida cultivada aqui (magnolia×soulangeana) emerge toda sua potência durante uma ou duas semanas no máximo, exalando um cheiro e cores inconfundíveis atraindo todos os sentidos físicos. Na última primavera fui arrebatada pelos cheiros das magnólias que vinham pela minha varanda que estava de frente ao parque de Elm. A florada perfumada logo na saída do inverno foi a melhor analogia para entender que o período de hibernada acabara e que os corpos reacendiam de forma quase abrupta da introspecção para a beleza da vida em moção. Mais gente na rua, mais interação e proximidade polinizando novos jardins.

Quando o frio vem chegando prossigo em pequenos passos preparando meu corpo e espírito para harmonizar com as outras espécies – parece ser um trabalho profundo de imersão entre perfume e essência atingindo a todos os sensores. Um reordenamento dos sentidos, provocando mudanças de atitude entre enxertos de tantas culturas e naturezas diversas recompondo à mim mesma: como uma samambaia que se torce em espiral tentando espalhar seus rizomas, ou por vezes, como um android replicante reproduzindo o lado branco racional, hegemônico e robótico – Be mild, not wild (como um marcação HTML no meu código-fonte).

Fundamentalmente diante desse lugar enxergo a necessidade em ter mais cuidado e atenção à uma memória também mediada por um ecossistema, ao invés de se ater aos modelos sociais e tecnológicos hegemônicos que tentamos e desejamos diariamente reconfigurar ou imitar. O sonho americano passou, a crise econômica é visível e a inserção e adaptação do imigrante é cruel. O império decadente apresenta índices alarmantes de obesidade e doença mental associados à depressão, ansiedade e alcoolismo. Paga-se muito caro por um atendimento médico, muitas famílias entram em falência por conta disso, e não existe um sistema público de saúde minimamente acessível e nacional (somente alguns estados como Massachusetts oferece plano de saúde aos pobres, e diga-se, pobres com cidadania).

Quando ofícios, tarefas e carreiras são determinadas por controle de seu tempo e mente para a manutenção de um sistema mediado pelo capital que nada lhe garante em troca – a rotina responde agressivamente clamando por integração e redução de recursos para assim afinar um olhar mais coletivo, colaborativo e solidário. E essa parece ser a visão que se tem entre algumas cidades de New England, mesmo entre muitas contradições e diferenças, a progressão de ideias provenientes da contracultura americana volta às suas mais variadas origens para compreender melhores condições que garantam o dia a dia, como o retorno ao plantio ao preparo de alimentação saudável; as casas coletivas e hortas comunitárias; o sistema de troca orientado para diminuição do consumo; às tomadas de decisões consensuais; à construção de moradas ambientalmente sustentáveis. A subcultura punk e DIY vem acumulando essa mudança de vida diária, além de mobilizar um circuito de artes independente quase sem nenhum recurso subsidiado, estimulando notadamente a produção de música, poesia e teatro (notadamente puppeters) agregado às redes de ativismo político. Entretanto, também podemos ver os parques gigantescos e praças planejadas para uso comunal (construídos justamente quando americanos viviam sob temor e caça aos comunistas) abarrotados de imigrantes de todos os cantos do mundo, num inglês em diferentes sotaques, que tentam uma vida americana interagindo pouco com americanos. No entanto, a mistura é considerável o que estimula conexões reais nessas cidades cada vez mais cosmopolitas – não há como escapar de uma interação inevitável, por vezes desarmoniosa, quando um conjunto de culturas se junta num espaço de acesso público proporcionando um novo lugar de ideias e atitudes em busca de uma vida que vá além das barreiras geográficas – Cause any place I hang my hat is home (porque qualquer lugar onde eu pendure meu chapéu, é minha casa).

Volto o olhar ao Brasil entendendo o quanto avançamos nas relações entre espécies diferentes a partir da devoração instintiva e incorporadora do outro, provinda de ancestralidades já remixadas. Uma poderosa tecnologia social a ser compartilhada entre esses fluxos de vidas globais, do qual pouco damos atenção. Devemos nos orientar nessa ancestralidade e na nossa forma de expressão como parangolés de profusão em corpo, forma e cor – como rizomas repensando modelos para uma vida diária que hesite em trabalhar por uma versão de progresso equivocado, pautado na exacerbação do consumo de bens e propriedades ou, de conhecimentos validados por mega instituições de pesquisa e educação.

Muito mais simples do que imaginamos, não se trata do novo mas de uma busca de si mesmo. É preciso descolonizar-se afim de romper as fronteiras dentro de si. Um sentimento anti-americano já consumiu muito tempo de raiva e rancor amuando o melhor de mim. Hoje reconstruindo um outro sentido nesta terra de muitos, revejo o espírito americano, reconhecendo-me como filha de uma América entrecortada por histórias de múltiplos lugares de tantas outras origens.

28. October 2013 by midiadmin
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