na XUMUCUíS

Eu fico imaginando os caminhos da vida que sigo considerando sempre como pesquisa experimental, eles seguem ao longo do tempo e parecem não findar…Enfim, Ramiro me encaminhou essas perguntas no fim do ano passado – eu estava no meio da agonia nômade, e ainda no meio do processo burocrático para fechar o projeto junto à lei de incentivo, portanto, o tempo passou (e então eu relaxei) e pude escrever um  pouco sobre esse processo…

Como surgiu a idéia para este mapeamento imagético sobre a Amazônia?
Entre 2010 e 2011 eu tive que migrar para os Estados Unidos, onde basicamente passei a residir, ainda que trabalhando em projetos para Belém. Foi essa distância me empurrou para desenvolver uma maneira de trabalhar remotamente, possível a partir do uso de internet. E isso a princípio me agoniava demais, perder o olho-no-olho, vivendo na fronteira entre duas realidades num mesmo continente : o norte gelado, rico e frio – versus – o trópico quente, pobre e úmido (interpretando o sentido de frio x úmido,como uma analogia entre corpos e situação de vida cotidiana).

Estou no nordeste dos Estados Unidos – que é a parte do país mais avançada no que tange a tecnologia digital e de informação, assim como o modelo de conhecimento e política da nova esquerda. É nessa região entre Nova Iorque e Boston que se concentram 5 das universidades top 10 do ranking das melhores do país, são elas: Harvard, Columbia, MIT, YALE e Princenton. É um mundo de uma internet com pelo menos 10 anos à frente, com gadgets três vezes mais baratos e modernos se comparados ao que temos disponível no Grão Pará (refiro-me à um território cultural mais do que uma precisão de mapa institucional). É também onde se concentra o ativismo verde, com inúmeros projetos, grupos e coletivos ligados às questões de mudança climática global, transgênicos, produção energética etc. Foi um choque cultural doloroso, mas proveitoso, que ajudou a enxergar e melhorar a perspectiva sobre o lugar de onde eu vinha,reconhecendo a diferença brutal de acesso à um capital cultural global, além de perceber a ostentação e sobrecarga de um modelo hegemônico de conhecimento que não nos representa.

Milton Santos não saía da cabeça (notadamente o livro Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal), em fazer-nos refletir quanto a geopolítica está presente em nossas vidas e o quanto somos esmagados por um suposto conhecimento que nos reverencia à distância (se vistos como commodities), mas que não nos garante estrutura, mecanismos e ferramentas para consolidar o NOSSO conhecimento, ou melhor, a NOSSA visão de mundo.A Amazônia é território notório presente na consciência coletiva global, entretanto sob o ponto de vista midiático, ainda permanece a visão romântica de uma natureza inexorável: como Jacques Cousteau e os botos cor-de-rosa entre plim-plins que insistem em sobreviver no nosso subconsciente.

Comecei a pesquisar sobre a incidência do termo Amazônia, e suas variações, a partir dos mecanismo de busca Google. Eu estava atrás de informações sobre a Amazônia brasileira, principalmente aspectos humanos e urbanos. Primeiramente digitei a palavra AMAZON,quando obtive inúmeras paginas referenciando o maior sites de vendas on-line do mundo. E se adicionava RAINFOREST, caía em inúmeros sites de agências internacionais com notícias sobre desflorestamento, aquecimento global ou reservas indígenas. E ainda, se acrescentasse AMAZONIA BRASILEIRA, indiferente se com Z ou S, caía em inúmeras páginas sobre turismo, churrascarias, desastres ambientais, ou mesmo sobre o açaí. Eu não conseguia ver nenhum resquício de informação sobre a urbanidade, o dia-a-dia, cultura popular urbana, ou mesmo aspectos políticos que interferem no processo de urbanização amazônico entre as notícias. Para acessar um site local, um bloco jornalístico, demandaria algumas dezenas de páginas até chegar a informação de interesse. Eu me posicionei como uma gringa, com boa leitura em português, tentando encontrar algo real sobre a Amazônia.

E o pior, se eu seguisse busca a partir de imagens, em sobressalto, reaparecem os rios, rios com a vista de cima, a floresta entre cortada por rios entre Ss e a imensidão verde com algumas representações indígenas. Além disso, uma quantidade significativa de arquivos videográficos, notadamente documentários televisivos sobre a Amazônia como última fronteira da natureza, com um vasto ecossistema a ser preservado. Uma Amazônia vista de cima, a partir de helicópteros, a visão exógena dos que vem de fora e recontam a história do lugar, ou seja, a concepção de um lugar sempre estrangeiro. Então, CUIDADO: a visão imagética magnífica da floresta e rios, se sobrepõem à uma alienação da realidade sobre os fatores políticos e sociais que definem e engendram as políticas de desenvolvimento e ocupação da Amazônia.

E isso me remeteu a uma única coisa: visão midiática implantada, do qual permeou a visão do lugar durante minha infância e adolescência (retomando Jacques Cousteau…) moldou gerações e que continua a influenciar uma concepção global ingênua sobre este território. O que ocorre é um alienação informacional, e pior, muitas vezes sustentada por nós mesmos o que exige uma engenharia reversa para assim re-significar os valores aponto de sermos vozes constantes de um ativismo que garanta a noção, defesa e reação para esse território. Então imaginei que seria importante usar qualquer recurso para retro-alimentar primeiramente esse reconhecimento de si – como filho do lugar, voltando às velhas formas tribais de se reunir. E focar caminhos de como agir na contramão deste discurso.

Ao conectar Arte e Política a Cartografia propõe uma criação artística mais crítica?
Isso com certeza, é só mais um passo necessário. Há alguns anos vinha acompanhando trabalhos envolvendo formas criativas de cartografia,com resultados que vão desde mapas mentais mais poéticos, até mapas radicais, políticos e/ou georreferenciados. É impressionante como o conceito de cartografia vem sendo experienciado por ativistas e artistas fundamentalmente afim de reinterpretar o espaço ocupado.São resultados que atuam muito mais numa dinâmica coletiva por retomada de consciência, do que simplesmente formar audiência ou simular espetáculos.
Cartografia trata da concepção, produção, difusão, utilização e estudo dos mapas. Não é o mapa em si mesmo, mas um caminho do qual utilizamos para observar e explorar uma documentação também importante para revirar nossa história, e a nossa história, não começa e morre no Pará. Se agente se restringir às cercanias institucionais geográficas estamos negando nossa natureza humana que carrega similaridades que vão do Caribe até mais adiantes das nossas bordas internacionais. To falando das tradições que não nos foram até então roubadas, à custo das resistências indígena e negra (nômades e fugitivos) que foram atravessando rios e florestas, readaptando e mixando realidades. Por isso temos muito mais afinidades com esse povo do que com o eixo centro-sul brasileiro.

As instituições informacionais podem estar nas grandes cidades da Amazônia, entretanto a consciência política a noção vívida do espaço é muito maior nas florestas, várzeas e nas áreas rurais.Mas é nas cidades que a informação midiática se concentra invisibilizando o que temos de melhor, e é na produção cultural que ela se extravasa, seja financiada pelo governo ou mesmo na cena independente. Por isso é muito importante ter a preocupação em construir uma consciência mais de acordo com o nosso sistema devida, mais digna e real. E não viver uma fantasia de um mercado que está nos dilacerando.

À quem estamos de fato fortalecendo se obedecemos a um discurso que nos mantém cegos, surdos e mudos? É preciso dar vazão à uma contracultura e dar espaço para que ela se expresse, e mais, temos muitas vozes com expressão, clareza e percepção admirável – masque não têm visibilidade, que não é fruto somente da opressão corporativa e do Estado, mas também fruto da falta de apoio entre uma rede de informação, que pode muito bem ser manejada colaborativamente por mais jornalistas, designers, arquitetos, artistas engajados à realidade local. Precisamos de mais ativismo local somando forças à quem interessa, e melhor seria em conectividade com ações globais. Isso é um caminho de futuro.

Essa expedição filosófica pela Amazônia profunda terá outros desdobramentos? Mais uma vez parabenizo pelo projeto importantíssimo.
Quero trabalhar por um desdobramento. O projeto que foi aprovado pela Lei SEMEAR com o patrocínio cultural do programa Vivo Lab entre 2010/11, teve duas etapas executadas entre 2011 e 2012. A primeira etapa correspondeu aos encontros imersivos entre Belém e Santarém, o que criou uma aproximação dos conteúdos a serem mapeados. No segundo momento, o que criamos (entre muitas mãos contribuindo) foi uma usina de produção caseira para reunir os conteúdos abordados durante as imersões resultando na produção da publicação impressa, nos remix em vídeos e ainda, num grupo de trabalho para a produção do MapAzônia. Esse processo de patrocínio cultural foi encarado como uma oportunidade experimental, em obter recursos e ferramentas que possibilitassem experiências a serem testadas com um espaço de tempo determinado, principalmente por grupos e indivíduos que trabalham, e se retro-alimentam no circuito da contra-informação.O laboratório, mais do que workshops e/ou debates, é um espaço-tempo muito importante para o fortalecimento de idéias, criatividade e mais, vislumbrar caminhos na produção criativa que estejam mais de acordo com a sua realidade. Além de estimular uma relação de trabalho mais digna e respeitosa (falo de horizontalidade, pagamento justo, espaço confortável e diversão coletiva). Quase não temos instituições ou espaços abertos para esse tipo de atividade em Belém. É meio prankster o negócio, pois sempre temos que fingir para obter o mínimo de acesso.

Então, não findou, a quantidade de material recolhido foi tamanha que valeria a pena criar uma database da pesquisa, e o mais importante, uma publicação robusta e bilíngüe (preferencialmente em espanhol) para reunir todos os textos e imagens acordados e compartilhados. Com isso, gostaria de negociar um espaço de exibição em outros países ou mesmo um painel legendando para amplificar as temáticas abordadas com o estudo e organização do Dossiê. Atualmente estou fazendo parte de um grupo de estudo entre ativistas e artistas em NY – EMERGENYC. Estamos trabalhando muito com os jogos e exercícios do teatro do oprimido além de, ter um acompanhamento especial da equipe do Yes Lab. Eu gostaria de levar essa experiência no próximo retorno à Belém e propor um laboratório aberto, se possível junto com o Labcart (que produziu o MapAzônia) para elaboração de mais um mapa, seguindo passos do trabalho que fizemos juntos em 2012.

08. May 2013 by midiadmin
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