Carta pras Icamiabas

POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!1

Tenho algumas razões a apresentá-los que funcionam como princípios básicos, a fim de elucidar os caminhos propostos para a realização do projeto Networked Hacklab em sua edição Norte, do qual sou produtora executiva junto à lei de incentivo e patrocinador, e também responsável pela concepção, planejamento e direção deste, para uma realidade localizada num pedaço da Amazônia brasileira. Este preâmbulo tenta explicar um percurso de reflexões que me fizeram repensar e rever o formato de projetos financiados através de leis de incentivo direcionados à produção em arte e tecnologia para territórios com especificidades regionais latentes.

A primeira delas foi atentar às linhas gerais do projeto nacional, já que o mesmo propunha a realização em várias cidades brasileiras, objetivando o desenvolvimento e a produção de conteúdo artístico-cultural-digital e o fomento para a criação de grupos de pesquisa e experimentação, se possível entre redes nacionais e internacionais2. Interpretei literalmente o slogan EXPERIMENTAR-INVENTAR-RECONFIGURAR que juntara a fome com a vontade de comer – não queria perder a oportunidade de experimentar e reconfigurar ações para uma realidade no Pará, considerando que se tratava de verba pública de incentivo e fomento à cultura, onde 80% do valor patrocinado é fonte de isenção fiscal da atuação da marca no Estado. Portanto, mais do que nunca, surgia a necessidade de jogar apaixonadamente, num território onde a arte encontra-se num campo cego-obscuro-oculto – entre redes e os meios da tecnologia digital e informacional, um terreno baldio apto de ser ocupado por situações de uso tático e crítico, ativando no devir de uma iniciativa a poesia e espontaneidade necessária.

 Como disse anteriormente, o contexto do projeto me agarrou pelo estômago, por outro lado tinha um estranhamento com o nome N-E-T-W-O-R-K-E-D-H-A-C-K-L-A-B que não estava fácil de digerir. Ainda que eu estivesse utilizando o inglês como primeira língua nessa morada na América do Norte, o estrangeirismo parecia dissonante para a concepção de uma ação na Amazônia justamente por se tratar de uma região com conectividade baixa onde poucos usuários estão familiarizados com um glossário web.

Fiquei uns meses me policiando e observando o quanto o estrangeirismo está presente na comunicação brasileira, principalmente entre as redes de arte e cultura digital do eixo centro-sul, onde termos veiculados na língua inglesa aparecem mais evidentemente na produção de conteúdos onde a banda larga apresenta significativa diferença no custo e velocidade comparados à região Norte3. De longe, minha intenção é negar, julgar ou forçar um “aportuguesamento” das expressões usadas na/para/da comunicação digital entre mundos e Brasil – até porque o Inglês é a língua dominante na web4, entretanto, reproduzir sem entender favorece uma forma de colonização arbitrária que se impõem pela língua e por suas expressões, reforçando seu papel social e econômico de poder num espaço geopolítico. O que quero reforçar é que o estranhamento existe por todos os lados provocando uma sensação de repulsa, atração e/ou fetiche sempre presentes entre grupos ligados à produção cultural local, muitas vezes expresso em forma de modismo, gerando a reprodução quase involuntária de um modelo de arte e cultura digital mais referenciada e dependente do centro-sul, fechando portas para compreensão de como a arte e as tecnologias estão relacionadas ao seu próprio espaço geográfico e cultural. Surgiam então reflexões pungentes: de que forma trazer à tona os conceitos por trás dessas terminologias através de uma linguagem cognitiva, mais próxima de suas percepções e experiências reais? Como escapar de modelos que reforçam o lugar que a arte ocupa nas estratégias do capitalismo financeiro? E assim, na tentativa de responder estas questões é que um détournement foi pensado para a ideia de um laboratório, como desvio: pervertendo as expressões do sistema contra ele mesmo – e ainda, centrado no entendimento de uma cultura hacker, essencialmente libertária, baseada no compartilhamento do conhecimento e na solidariedade.

Continuando o quadro de inquietações contextuais em que o projeto se insere, evidencio a relação entre a política cultural e seus vícios, que muito auxiliam para obscurecer os processos da produção de arte associada às tecnologias na região, dentre estas, as possíveis e acessíveis. A primeira delas é como o nosso modelo de mecenato vem sendo estimulado por décadas: um processo em que cabe à iniciativa privada a decisão sobre uma grande parcela da produção cultural do país, onde o dinheiro que financia os projetos é na verdade público, privilegiando formatos que ganham espaço nos meios de comunicação de massa, justamente para gerar um volume de eventos de entretenimento e diversão5. No estado do Pará, a lei de incentivo SEMEAR vem sendo utilizada há pelo menos uma década, e de lá pra cá o que se percebeu foi o crescimento de uma cadeia de produção dependente e subserviente ao mecenato, competitiva e conflituosa, pois na região são escassos os recursos da iniciativa privada, com o agravante do alto custo para estruturação de projetos por deficiência e carência de infraestrutura local, distância entre as regiões, etc6. Assim, no Pará como em todo país, percebemos profissionais da área artístico-cultural obrigados a improvisar a função de especialistas de marketing, ou pior, subservientes aos maneirismos das empresas e serviços publicitários, tendo que dominar uma lógica burocrática e técnica, que pouco tem a ver com a da criação7. A segunda agonia, que em parte também é reflexo desse mecenato, está relacionada ao modelo dos eventos pensados para arte e tecnologia, que em sua grande maioria parecem obedecer a um formato baseado em experiências do hemisfério norte e rico, apresentando abordagens herméticas que pouco ou nada correspondem às vivências da audiência em questão. Essa dissonância de linguagem parece subjugar ou não atentar às experiências locais, propondo pouca ou nenhuma reflexão de como essas tecnologias são mimetizadas em nosso ecossistema, neutralizando o sentido crítico e político destas em favor do espetáculo, propondo um jogo desigual, quase pernicioso, em que a ideia de futuro e avanço correspondem a um paradigma unilateral: a perspectiva dos que têm acesso e poder informacional.

Ora, a Amazônia é uma periferia com escasso acesso aos meios digitais e que sofre muito com o impacto da privação tecnológica8 justamente por se tratar de uma região vista como a grande fronteira do capital natural onde se concentram megaprojetos que se apropriam e mercantilizam o ecossistema amazônico, muito destes atendendo a uma demanda mundial de suprimentos naturais para a produção de bens eletrônicos. É nesse território de oprimidos, numa cultura em que a maior parte dos brasileiros desconhece, que parecia ser o melhor e mais excitante ambiente para jogar contra o aparelho. E para isso, tornava-se primordial re/conhecer uma comunidade e futurizar seus afluentes, dar voz às suas visões e perspectivas locais, entender seus processos políticos, poéticos, e ainda os bens simbólicos relacionados à maneira de viver na região. Assim nascia a proposta de uma carta geográfica – compartilhada entre redes, que pudesse localizar interesses em âmbito global, principalmente a fim de elucidar o entendimento sobre a questão dos commons9 e o imaginário midiático que mitificou a ideia do que seria a realidade amazônica para o mundo. Portanto, a proposta de H-A-C-K-L-A-B10 (aqui foi levada ao pé da letra, do QUÊ e COMO podemos adaptar, modificar e/ou corrigir um programa/sistema para assim gerar acesso potente e mais próximo de uma realidade de fato.

O passo seguinte foi desconstruir a ideia de evento desfalecendo uma programação. O mais importante era agregar em cada cidade um conjunto de pessoas que dialogavam com o contexto proposto, seja em suas atividades, projetos e interesses. Junto a estes, os convidados não locais11 que de alguma forma representavam nodos de outras redes com afinidades e/ou ações comuns que envolvessem a região. O convite fora à todos, uma chamada para imersão, alusão para banhar-se no rio grande – a origem Tupi da palavra Pará. E envolver as pessoas de acordo com a perspectiva de horizonte do lugar: o rio infinito sempre presente nas duas cidades, Belém e Santarém. É preciso tempo e imaginação para reconhecer o lugar, perceber a quais redes ele se conecta e buscar ou produzir conhecimento. E assim, a impulsão foi provocar uma experiência promovendo um encontro entre narradores que pudessem se conectar a uma rede presencial que proporcionasse compartilhamento e troca de experiências.

As imersivas favoreceram momentos importantes. O primeiro deles fora a mediação entre convidados locais e não-locais a partir de apresentações gerais sobre temas, pesquisa e processo criativo, oportunizando o surgimento de rodas de conversas, mostras e performances, realizadas de acordo com a demanda de cada grupo, que estava sempre aberto a uma audiência de livre acesso com os outros. Os pontos dramáticos do modelo geopolítico da região gradativamente surgiam durante as apresentações, evidenciando os assuntos e palavras-chaves que poderiam compor as narrativas possíveis para um mapa em constante movimento, o que provocava um debate amplo consensual e por vezes conflituoso.

Parte dessa narrativa é contada a partir do álbum fotográfico – http://hacklab.comumlab.org/photos, onde são apresentadas as tags relacionadas ao encontro, além de fragmentos de textos que permearam as situações vivenciadas durante o processo. A experiência favoreceu uma troca e suporte de material que pôde subsidiar e dar origem a tantas outras cartografias, pesquisas e produções que envolvam as tecnologias no contexto geopolítico regional, isso sem abandonar uma perspectiva poética e criativa. O resultado das imersivas fora expresso em forma de relatos, trocas bibliográficas, vídeos, filmes e muitas imagens compartilhadas através de um HD externo que à todo momento estava disponível para copiar, colar e distribuir a informação circulante. Ainda assim, era difícil perceber um resultado durante as imersões. Foi necessário ganhar um tempo para minimamente organizar as informações processadas que surgiam em forma de diário e linkanias, meses após os encontros.

As informações compartilhadas evidenciaram alguns caminhos para que mais projetos se desenvolvam a partir de uma visão mais aproximada aos pontos críticos da Amazônia, e melhor, com mais contribuições propostas por amazônidas. Algumas pesquisas poderiam desencadear o planejamento de uma comunicação efetiva: via celular, para atender as redes que interagem dentro da Amazônia (cineclubismo, por exemplo); o desenvolvimento de redes autônomas sem fio a fim de gerar e distribuir informação entre bairros não atendidos ou fora do mapa das conectividades (não-públicas); a organização e formação em uso de mídias digitais para fortalecer o trabalho das organizações em direitos humanos, etc. Os relatos foram disponibilizados no wikki do projeto – http://hacklab.comumlab.org, criado durante as imersivas em colaboração com uma rede autônoma ZASF proposta e desenvolvida por Felipe Fonseca. Além disso, um grupo também fora criado no facebook, e de lá pra cá, todo material vem sendo organizado também numa rede independente entre mais projetos latino americanos, https://n-1.cc/pg/groups/915668/por-uma-cartografia-crtica-da-amaznia/, gerando uma vizinhança com projetos afins, como a proposta de Cartografias Insurgentes realizada no Rio de Janeiro.

Por fim, o sentido mais importante do que se pôde barganhar com a realização desta experiência – considerando o tempo e as contingências – foi o jogo possível e estabelecido entre a nossa criatividade, liberdade e autonomia. E nesse jogo, do quem-perde-ganha, como diz Vaneigen: aquilo que não é dito é mais importante do que aquilo que se diz, aquilo que é vivido é mais importante do que aquilo que se é representado no plano das aparências12. Portanto um espaço-tempo subjetivo, possibilitando a gestão de um conhecimento, um viver junto, mesmo que temporariamente e anônimo.

1Referência direta ao episódio IX de Macunaíma (1928), quando Mário de Andrade utiliza-se da grafia de uma carta para satirizar o modo como a gramática manda escrever e como as pessoas efetivamente se comunicam.

2 A principal premissa do Networked Hacklab é a execução de projetos colaborativos, sempre em diálogo com as novas tecnologias a partir de um laboratório apropriado para o desenvolvimento de dispositivos digitais e eletrônicos. O projeto que ocorre em Belém e também nas cidades de Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Cachoeira (BA) é financiado pela política de incentivo dos Estados com patrocínio do programa Vivo Lab, sob a curadoria de Rodrigo Minelli. O Programa Vivo Lab, propõem UMA REDE COLABORATIVA DE CULTURA, que cria oportunidades para que as pessoas desenvolvam – de maneira colaborativa e consciente – formas de expressão e participação na sociedade contemporânea. Ver em: http://www.hacklab.art.br | http://www.vivolab.com.br/

3 Entre as regiões brasileiras, a mais afetada pela falta de disponibilidade de infraestrutura de TIC’s (Tecnologias da informação e comunicação) é a região Norte. A região apresenta a pior média de velocidade de download (758Kbps e 219Kbps de upload) e o pior tempo de latência média: 616ms (quase 10 vezes mais lenta do que a região sul); apresentando as médias mais baixas, onde 37% das velocidades situam-se até 256Kbps e 47% entre 256Kbps a 1Mbps. E ainda assim, pagando a banda larga três vezes mais que a região centro-sul. No Pará, só 7,7% das casas têm acesso. Estados isolados como Roraima e Amapá têm acessos residenciais praticamente inexistentes. Para se ter uma ideia da discrepância, no Distrito Federal a taxa de acesso é de 51%. Nos Estados do Sul e Sudeste, a penetração varia entre 20% e 30%. Fontes: portais cgi.br, IPEA e IBICT; Folha de São Paulo.

4 São em media 500 milhões de usuários utilizando o inglês, ocupando o primeiro lugar no ranking de línguas mais utilizadas na web, de acordo com dados apresentados no site Internet World Stats – Usage and population statistics. Ver em: http://www.internetworldstats.com/stats7.htm

5 Referência ao artigo do antropólogo Marcelo Gruman: Nem tanto ao céu, nem tanto a terra: limites e possibilidades da lei de incentivo fiscal à cultura, disponível em: http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2010/02/artigo-de-marcelo-gruman.pdf

6 O custo amazônico é um debate amplificado pela Rede Teatro da Floresta e disseminado nas edições da Conferência Nacional de Cultura, que discute formas para um orçamento diferenciado na região, uma vez que a distribuição geográfica de tecnologia e de recursos está distribuída de maneira desigual, sendo o custo de produção para artistas amazônicos é o dobro se comparado a artistas de outros estados.

7 Continuando com a análise de Gruman:Os projetos passam a ser concebidos, desde seu início, de acordo com o que se crê que irá interessar a uma ou mais empresas, sendo o mérito de determinado trabalho medido pelo talento do produtor cultural em captar recursos e não pelas qualidades intrínsecas de sua criação (BOTELHO, 2001)(…) O modelo atual, ainda de acordo com o diagnóstico do MinC, exclui a inovação, a gratuidade e os projetos sem retorno de marketing; não fortalecem a sustentabilidade do mercado cultural; inibe a percepção de que os recursos são públicos; não promove a democratização do acesso aos bens culturais.

8 Apesar dos números serem pouco expressivos e da maioria da população do Norte não ter internet em casa, a região apresentou um dos maiores aumentos de usuários nos últimos anos, com 171,2%, perdendo somente para o Nordeste (213%). Tudo isso ocorre pelo fato da Região Norte ser uma das mais pobres do Brasil, e consequentemente, as pessoas não têm poder aquisitivo para comprar os equipamentos de que precisam. Então, um dos principais motivos para a indisponibilidade de internet nos domicílios é o alto custo e a falta de serviço prestado para instalações telefônicas. O Norte ainda concentra o maior percentual de acesso por internet discada (31%), 11 pontos percentuais acima da média nacional. Todavia, em 2009, constatou-se uma queda de oito pontos percentuais, relembrando o mesmo dado do ano passado. Tal informação aponta para uma expansão da infraestrutura de acesso à rede para as áreas mais remotas do Brasil, contribuindo para a inclusão digital da população. São altos os investimentos entre 2010/2011 por tecnologia satélite na região amazônica. O projeto GESAC, previu cerca de 9mi para distribuição de kits para áreas rurais na região. Entretanto, isso não contribuiu para suprir a necessidade nas áreas urbanas quanto ao uso das TIC’spara a produção e distribuição de conteúdos culturais.

9 Em Commons, a revolução na produção simbólica, por Sergio Amadeu da Silveira: A palavra commons pode significar aquilo que é comum ou os espaços e as coisas que são públicas. Em alguns casos pode ter o significado de comunidade ou da produção compartilhada entre pares. http://www.cultura.gov.br/site/2007/05/03/commons-a-revolucao-na-producao-simbolica/

10 Aqui, se refere ao lugar onde meu coração está, não corresponde exatamente um espaço físico, mas o poético e vívido. Por muito tempo distante entre idas e vindas por Belém do Pará, lugar onde nasci, ainda resguarda inúmeras recordações na memória de uma cultura que resiste em coexistir na ideia entre espaço, natureza e tempo.

11 Os convidados não-locais da primeira imersiva: Pablo de Soto (Madri), arquiteto e membro fundador do coletivo hackitectura.net; Ricardo Folhes (STM), mestre em Ciências Ambientais e especialista em geoprocessamento; Felipe Fonseca(SP), pesquisador e articulador de projetos relacionados a redes de produção colaborativa e livre, mídia independente, software livre e apropriação crítica de tecnologia; Tatiana Wells (RJ), pesquisadora e agitadora de projetos relacionados à produção digital colaborativa, tecnologias livres e experimentação com narrativas locais; e Paulo Tavares (UK/SP), professor e organizador da plataforma mara-stream.org do Programa de Pesquisa em Arquitetura da Universidade Goldsmith. A segunda imersiva contou com a participação do coletivo colombiano Antena Mutante (Jorge Agudelo e Ali Salem/Colombia) que trabalha as relações do espaço público – as ruas e a internet, configurando mapas que evidenciam conflitos contextuais; o cineasta Bruno Viana (RJ), em continuidade de sua pesquisa com satélites geoestacionários; e Bruno Tarin (RJ) um dos fundadores da rede Imotirõ, além de pesquisador e gestor em projetos de cultura digital. Em ambas as imersivas este grupo percorreu as duas cidades, acompanhados por mim e com a mediação do artista, agitador e professor Arthur Leandro (PA).

12 Vaneigem, Raoul. A arte de viver para as novas gerações – Coleção Baderna. Conrad Editora. São Paulo. Pág. 199

23. December 2011 by midiadmin
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